Dr. Marco Aurélio Galletta
(CRM 65774)
Médico Assistente da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da FMUSP - Responsável pelo Setor de Gravidez na Adolescência



Outros Exames na Rotina do PRé Natal


Na matéria anterior, falávamos sobre os procedimentos 
que seriam necessários para todas as mulheres durante
suas gestações, e descrevemos as sorologias que constam 
na rotina a ser solicitada durante o pré-natal destas mulheres. 


Nesta edição, falaremos sobre os demais exames que adequadamente se pedem durante este período.



Leia Também:
A rotina do Pré Natal: Sorologias (dezembro/00)
A importância do Pré Natal
(novembro/00)
Como surgiu o Pré-Natal?
(outubro/00)

 

Dentre tais exames, fundamental é a tipagem sangüínea, não só para facilitar uma transfusão sangüínea que se imponha frente a uma hemorragia materna na hora do parto, como também para evitar a assim chamada eritroblastose fetal (ou doença hemolítica do recém-nascido - DHRN), situação em que a mãe destrói os glóbulos vermelhos do seu filho ainda dentro do útero, por não reconhecê-los como seus, geralmente por uma incompatibilidade do sistema Rh, onde o filho seria positivo e a mãe negativa para este elemento sangüíneo.

Assim, através de um exame simples como este, pode-se antever futuros problemas e agir a tempo de evitar a doença em suas formas mais graves.
Se a mãe for Rh negativo (cerca de 15% de nossa população o é), devemos pesquisar a tipagem do marido. Se este for também negativo, não haverá problemas. Mas se for positivo, há chances da criança também ser e, neste caso, necessário se torna a pesquisa de uma possível reação do sangue da mãe com o da criança. Isto é feito através da pesquisa de anticorpos irregulares no sangue materno mensalmente, sendo o Coombs Indireto o protótipo na pesquisa destes anticorpos. No 7º mês (28 semanas), quando este risco aumenta, poderemos agir de forma preventiva, administrando à mãe uma "vacina" que visa "enganar" o organismo materno, não permitindo a reação. É lógico que, como qualquer vacina, há o risco de reações e seu uso deverá ser discutido com cada paciente. Além disso, o Ministério da Saúde brasileiro não preconiza tal uso e quem o quiser fazer terá de arcar com o custo, que se encontra por volta dos 120 reais. 

Outro exame de sangue é o hemograma. Com ele, se percebe se a gestante está com anemia ou algum tipo de infecção sistêmica. Poderá ser repetido a posteriori na eventualidade de existir já algum grau de anemia. Na dependência do grau e das características desta anemia, outros exames poderão ser solicitados, como a dosagem de ferro e a eletroforese de hemoglobina, esta última servindo para identificar anemias hereditárias, muito mais graves, mesmo porque podem também afetar a nova criança que vai nascer.

Como últimos exames de sangue, temos aqueles relacionados à pesquisa do diabetes mellitus na gestante. Para tanto, são várias as rotinas preconizadas. Falarei aqui da que acho ser a mais adequada e que vigora na Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da FMUSP. Inicialmente, devemos entender que toda mulher que engravida tem o risco de desenvolver o diabetes gestacional, que seria uma dificuldade da mulher lidar com o excesso de glicose de sua alimentação, vindo a apresentar teores de glicose elevados no sangue, o que viria a comprometer o desenvolvimento do feto, aumentando o risco de morte da sua criança logo após o parto. 

Entretanto, algumas pacientes têm um risco ainda maior, seriam aquelas acima dos 35 anos, com sobrepeso, com antecedentes familiares de diabetes e história pregressa de crianças maiores do que 4 quilos, malformadas ou que morreram dentro do útero ou logo após o parto sem explicação adequada. Tais mulheres deverão fazer glicemia de jejum mensalmente até o início do 7º mês (28 semanas), quando então precisam se submeter ao teste de tolerância à glicose oral (TTGO, ou GTT em inglês). Este teste investiga a reação da paciente a uma sobrecarga conhecida de glicose (100 g no caso), com dosagens de glicose sangüínea a cada 60 min. até se completarem 3 horas de exame. É um exame um tanto desagradável, mas insubstituível no diagnóstico da doença.

Para as demais gestantes, cujo risco não é tão elevado assim, não se faz nenhum exame até o 6º mês (24 semanas), quando então se solicita o teste simplificado com 50 g de glicose, ao invés dos 100 g do teste completo, com apenas uma dosagem sangüínea 1 hora após a ingesta. Se o exame vier alterado, começa a se encarar tal gestante como de risco e aí ela entra na rotina para o outro tipo de paciente, devendo fazer o TTGO completo, que poderá vir alterado ou não. Ou seja, o teste simplificado não dá diagnóstico, mas apenas alerta sobre uma situação de risco.

Vale aqui algumas palavras sobre alguns médicos desatualizados que ainda solicitam a glicemia de jejum 1 vez só, para todas as pacientes, no início do pré-natal. Agindo desta forma, só se pode diagnosticar as pacientes que já eram diabéticas antes da gravidez. Ou seja, não se identificariam aquelas com diabetes gestacional, mesmo porque este tipo de doença caracteristicamente só se desenvolve a partir do 6º mês de gravidez, quando as alterações do metabolismo materno se revelam maiores. Por isso, fique atenta. Ninguém gosta de fazer exames, mas às vezes eles são imprescindíveis e podem fazer a diferença entre uma criança com saúde de outra sem. Quanto aos demais exames, fique tranqüila. Você não precisará mais tirar sangue!

Temos ainda a comentar o exame de urina e o de fezes. A solicitação deste último é questionada por diversos médicos. Se a mulher tem boa orientação higiênica e bom nível econômico e cultural, se toma água mineral ou filtrada, se lava bem suas mãos, além das verduras e frutas, a possibilidade de apresentar uma parasitose é remota. No entanto, ao não diagnosticarmos uma parasitose numa grávida, podemos favorecer um processo de anemia e contribuir para um ganho de peso inadequado, que podem comprometer o crescimento do feto. Assim sendo, pela minha opinião, deve-se colher sempre o exame de fezes. Afinal, seguro morreu de velho e o exame não é tão ruim assim!

Quanto ao exame de urina é importante dizer que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, ele não serve simplesmente para diagnosticar a infeção urinária. Para tanto, as mulheres muitas vezes fazem o diagnóstico sozinhas, só precisando do exame para se confirmar a sensação inicial (quem já teve uma infeção urinária sabe do que estou falando: quando se tem, se sabe bem!). Mas o exame de urina tipo I (o mais simples) também nos revela se o rim está funcionando bem, se concentra bem a urina, se tem sinais de cálculo ou de uma doença renal que faça perder proteína ou células pela urina. Às vezes, diagnosticamos uma nefropatia silenciosa apenas pelo exame de urina e isto é muito importante porque, neste caso, a doença pode piorar durante a gravidez e comprometer para sempre a saúde desta mulher. Por outro lado, pacientes com diabetes e gestação gemelar, deverão fazer este exame todo mês e tal exame deverá ser repetido sempre que a gestante apresentar sinais de infeção (como ardor para urinar) e sintomas dolorosos em baixo ventre, que podem se dever a uma infeção urinária, mesmo sem sintomas específicos.

Como último exame de rotina, devemos listar a Colpocitologia Oncótica, ou o exame de Papanicolaou. Também para este exame, existem dúvidas sobre seu caráter rotineiro. Se a mulher tem sido acompanhada pelo seu médico há alguns anos e seus exames preventivos são sempre normais, sendo o último deles há cerca de um ano, talvez não fosse interessante sua repetição na gravidez. Mas, em nossa prática clínica diária, vemos que muitas mulheres negligenciam o cuidado com sua própria saúde e deixam de fazer o Papanicolaou anualmente. Principalmente para estas mulheres, impõe-se a realização deste exame durante a gravidez, mesmo porque o risco de uma lesão pré-cancerígena evoluir durante este período parece estar aumentada, requerendo maiores cuidados. Na dúvida, também pode-se abrir mão da Colposcopia, que vem a ser um exame mais minucioso do colo uterino, visto através de lentes e filtros especiais, visando a identificação de áreas suspeitas para biópsia e confirmação de diagnóstico. Tanto um como outro exames não acarretam risco per se e podem ser feitos na gravidez sem medo.

Com tais exames, completamos o rol dos procedimentos laboratoriais a serem solicitados durante o pré-natal. Naturalmente, de acordo com as características de cada mulher, suas queixas, sinais e sintomas, outros exames também podem ser pedidos e isto ficará a critério de seu médico. Apenas quisemos ilustrar aqui aqueles mais comuns e que certamente necessitariam ser feitos durante este período. Sinto ser importante enfatizar por outro lado que pré-natal não é tão somente a realização de exames laboratoriais. Para isto não se precisa de médico, e este é um profissional que está a seu dispor para identificar riscos, fazer diagnósticos e orientar ações de saúde que não se limitam ao simples pedido de exames. Graças a Deus!...

Aviso: As informações contidas neste Web Site, não podem ser usadas como um substituto para se obter aconselhamento 
ou tratamento médico. Os leitores deste Web Site não devem depender exclusivamente das informações aqui contidas. 
Procure sempre um profissional especializado.

 



Copyright© Clube do Bebê 2000/2004