Dr. Marco Aurélio Galletta
(CRM 65774)
Médico Assistente da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da FMUSP - Responsável pelo Setor de Gravidez na Adolescência



A Rotina do Pré-Natal: Sorologias


Já vimos o quão importante é o pré-natal e como ele pode 
ser utilizado para diminuir as taxas de mortalidade infantil e materna, além de patrocinar melhorias na saúde de nossas famílias.

Para tanto, algumas medidas médicas e não médicas 
devem ser realizadas em todo e qualquer pré-natal de forma rotineira, independentemente do grau de risco materno.



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A nossa intenção hoje é começar a descrever tais medidas, para que a futura mãe se familiarize com tais procedimentos, reconheça sua importância e se mostre cada vez mais confiante na medida em que eles forem sendo feitos no decorrer de sua gravidez.

Dentre tais medidas, sem sombra de dúvida, os exames laboratoriais são de suma importância e, dentre estes, as sorologias ocupam lugar de destaque. Esta classe específica de exames visa diagnosticar a presença de certas infeções em nosso corpo, sejam elas infeções virais, bacterianas ou de protozoários. Tais exames quantificam o tipo de resposta imunológica, com a produção de anticorpos específicos, que nós fazemos para controlarmos tais infeções. No campo da obstetrícia estes exames assumem uma importância sem igual, porque nos revelam se a mãe está com algum tipo de infecção que possa passar para o seu bebê e comprometer seu desenvolvimento.

A sorologia mais importante talvez seja a reação sorológica para sífilis (RSS). A Sífilis é uma doença sexualmente transmissível que passa facilmente para o feto, levando a graves conseqüências. Tal infecção, ao atingir a criança, pode levar a um quadro de infecção crônica de difícil tratamento, com acometimento mental, ósseo e cardíaco, dentre outros. O triste nesta história é que o tratamento durante a gravidez é muito fácil (com uma ou duas doses de BenzetacilÒ) e, apesar da disponibilidade do exame e do tratamento em todos os pré-natais, é uma doença que acomete cada vez mais crianças no Brasil.

Outra sorologia importante é aquela que detecta o HIV (vírus da imunodeficiência humana). Também de transmissão sexual, possui uma passagem significativa pela placenta e pode assim, se não detectado a tempo, infectar a criança, fazendo com que ela apresente AIDS ainda nos primeiros anos de vida. Hoje em dia, já temos um tratamento altamente eficiente para combater esta transmissão do vírus para o feto, podendo ser administrado à mãe durante a gravidez. Apesar do Ministério da Saúde preconizar não só o teste como também o tratamento das gestantes, ainda temos muitas mulheres que, não fazendo o exame ou fazendo-o muito tarde, não se beneficiam de tais recursos, contribuindo para o aumento da AIDS nas crianças brasileiras, o que é fato de grande repercussão social.

Outras sorologias que se fazem no Pré-Natal seriam as específicas para Toxoplasmose e para Rubéola. A primeira doença é relativamente comum e a maioria da população adulta brasileira já a teve em algum momento da vida. Ela geralmente surge como uma febre acompanhada por aumento dos nódulos linfáticos (as "ínguas"). No adulto não apresenta maiores complicações. No entanto, quando a mulher desenvolve a Toxoplasmose durante a gravidez, poderá transmiti-la para o feto, determinando lesões cerebrais como a hidrocefalia, as calcificações intracranianas e o retardo mental, além das oftalmológicas, que vão desde pequenas alterações até a cegueira completa. A importância deste teste está associada a três possíveis situações. Na primeira se verifica que a mulher já teve a doença no passado e pode ser tranqüilizada que nada acontecerá na atual gravidez. A segunda possibilidade é de que esta gestante nunca teve a doença, sendo portanto susceptível a desenvolvê-la no presente. Tal mulher deverá ser orientada a mudar seus hábitos alimentares e higiênicos, para não contrair a doença nos próximos meses, além de ter este exame repetido por pelo menos mais duas vezes durante o pré-natal. As orientações serão no sentido de evitar comer carne malpassada e ovo cru ou pouco cozido ou frito, ingerindo somente frutas e verduras bem lavadas. Outra orientação seria de evitar o contato com gatos e cachorros e ainda o trabalho com jardinagem. Com tais orientações, diminui-se muito a chance da infecção, mas se acaso ela ocorrer (e esta seria a terceira possibilidade), ainda há como tratá-la durante a gravidez, diminuindo a chance do acometimento fetal. 

Quanto à Rubéola, é um exame que toda mulher, mesmo antes da gravidez, deveria fazer. Mesmo aquelas que já tenham tido o quadro clínico de pintas pelo corpo deveriam fazer a sorologia para ter certeza se foi Rubéola mesmo ou não, porque há diversas outra doenças que se parecem com ela. Outro fato interessante é que muitas mulheres que já são imunes à Rubéola nunca tiveram o quadro clínico. Ou seja, estamos falando de uma sorologia muito útil e que define muita coisa, devendo ser solicitada para toda gestante, de preferência no início do pré-natal, isto porque a infecção é muito grave nos 3 primeiros meses de gravidez, quando a possibilidade de acometimento fetal é muito maior, podendo levar à cegueira, malformações cardíacas e surdez, dentre outras graves alterações. As mulheres que já tenham tido a doença deverão ser tranqüilizadas e as que forem susceptíveis deverão ser orientadas a evitar o contato com crianças em geral e as doentias (com febre) em específico, lembrando que quando as pintas surgem, o período de maior transmissibilidade já se passou. É muito importante que as mulheres que nunca tenham tido Rubéola sejam vacinadas, podendo ser tal vacina dada ainda nos primeiros dias pós-parto, pois não interfere com a amamentação.

Outra sorologia que está se firmando como rotina nos últimos anos é a de Hepatite B. É também uma doença de transmissão sexual, mas não só. Pode-se contrair a doença com transfusões de sangue e uso de agulhas não esterilizadas (cuidado com acupuntura, piercing e tatuagens!). A interpretação dos resultados desta sorologia não são tão fáceis, porque a doença pode ser aguda, subaguda ou crônica. No entanto, um bom marcador inicial da doença seria a pesquisa do anti-HbC total, que estaria positivo em qualquer tipo de infecção. Aqui o que importa é a presença do vírus da hepatite B em circulação no corpo da mulher. Se isto estiver ocorrendo, o risco de transmissão para a criança chega a ser de 50% ou mais. Não há nada de prático que possa ser feito durante o pré-natal, mas o fato do pediatra estar avisado sobre o problema materno melhora em muito a abordagem inicial desta criança no berçário, podendo ser providenciado o tratamento precoce do recém-nascido, com ótimos resultados. Infelizmente, muitas mães não fazem este exame e as crianças nascem infectadas, o que é muito grave porque, nesta situação, a chance de se evoluir para a cirrose hepática é muito grande e o tratamento para isso é um só: o transplante hepático.

Uma última sorologia seria a da Hepatite C. Este é um tipo de doença hepática nova, cujo conhecimento pelos médicos tem cerca de 10 anos e, portanto, pouco se sabe. Apesar disso, sabe-se que ela costuma evoluir para a hepatite crônica e para a cirrose muito mais facilmente que a Hepatite B e que também pode passar para o recém-nascido, ainda não se sabendo em que extensão isso se faça. Não há nada de prático que se possa fazer durante a gravidez e não há vacina disponível para a criança no pós-parto. No entanto, a amamentação tem sido contra-indicada, o que nos autoriza a pedir a sorologia, com vistas a este benefício, pequeno mas relevante, no sentido de desaconselhar a amamentação nas mulheres positivas para o vírus.

Uma sorologia que não é mais solicitada é a do citomegalovírus (CMV). Embora constitua a infecção congênita mais comum em nossos berçários, é quase impossível a prevenção da mesma durante o pré-natal. Além de não termos tratamento específico para ela e não termos como orientar no sentido da prevenção da infecção, pois ela é muito freqüente na população e se pega pelo ar, ainda para piorar a situação não podemos nem ao menos tranqüilizar as pacientes que já sejam imunes à doença, pois mesmo estas podem voltar a desenvolver a doença e passá-la para o bebê.

Finalmente, se a paciente mora em uma região com grande número de casos da Doença de Chagas, impõe-se também este tipo de pesquisa. Para habitantes da região sudeste e sul do país, excluindo o norte de Minas, tal exame não tem sentido.

Na rotina do pré-natal ainda teríamos outros exames a serem solicitados, mas falaremos deles em outro momento.

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