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Tal intenção ainda está presente nos dias de hoje, principalmente num país como o Brasil, onde encontramos ainda altas taxas de mortalidade, apesar das melhorias verificadas no sistema de saúde. Sem dúvida nenhuma, a atenção dispensada pelo médico durante o pré-natal protege a mulher e sua criança, diminuindo as complicações que podem surgir no decorrer da
gravidez.
Existem mulheres que correm riscos ao engravidarem, pois já possuem algum problema de saúde previamente à gravidez, como por exemplo as mulheres hipertensas (com pressão alta), as diabéticas (com alto teor de açúcar no sangue) e as cardiopatas (com problema no coração). Estas são as gestantes ditas de alto risco.
No entanto, outras mulheres - as assim chamadas gestantes de baixo risco - não possuem inicialmente nenhum problema de saúde, mas poderão vir a desenvolvê-lo durante a gestação. Felizmente, a maioria das mulheres tem uma gravidez normal, sem problemas, mas para cerca de 10% delas haverá alguma complicação, que muitas vezes pode ser evitada ou pelo menos adequada e precocemente tratada quando o pré-natal se faz de forma consciente e atenta, não só pelo médico, mas também e principalmente pela paciente que, se não perceber a importância deste tipo de assistência, poderá ser prejudicada e passar por riscos de saúde e até de
vida.
Como o pré-natal, na estrutura que temos atualmente, é aquisição recente da Obstetrícia nacional, muitas das atuais avós ou bisavós não fizeram nenhum tipo de assistência pré-natal, o que é particularmente verdadeiro para as que viviam longe dos centros urbanos. Assim, todos nós ainda temos contato com mulheres para as quais o pré-natal vem a ser uma perda de tempo, pois elas mesmas não passaram por isso e sobreviveram. Assim, entendo ser vital a ênfase na importância deste tipo de atenção à gestante, para dirimir dúvidas e suprimir as impressões
erradas.
A assim chamada gestação de baixo risco - que vem a estar presente em toda e qualquer gestante sem problemas prévios de saúde - pode desenvolver intercorrências como o trabalho de parto prematuro, a rotura prematura de membranas (a "bolsa das águas" que se rompe), a criança com restrição do crescimento intra-uterino (RCIU), o diabetes gestacional e a tão temida pré-eclâmpsia, que seria o desenvolvimento de hipertensão arterial (pressão alta) e edema (inchaço) em mulheres previamente normais, e que pode desembocar na convulsão e na morte da paciente, quando não adequadamente tratada.
Algumas das complicações listadas acima surgem muitas vezes em mulheres com algum fator predisponente, que cabe ao médico pré-natalista identificar e abordar durante a gestação. No entanto, em muitas das mulheres com tais complicações não há nenhum sinal, nenhuma história, nenhuma dica prévia de que tais doenças surgirão. Assim sendo, haveria apenas uma forma eficiente de enfrentar tais problemas: um médico atento a qualquer sinal ou sintoma incipiente da doença.
É lógico que a identificação dos diversos graus de risco no início do pré-natal, associado a realização de alguns exames laboratoriais durante a gravidez são também importantes, mas nada substitui a atenção e o raciocínio do bom médico que, agendando consultas tanto mais frequentes quanto mais se aproxima o final da gravidez, pode diagnosticar e tratar a doença precocemente.
Infelizmente, muitas mulheres confundem pré-natal com check-up e se tranquilizam ao realizarem mil e um exames de sangue, urina e ultrassonográficos. É muito importante afirmar que nenhum exame pode, ao início do pré-natal, assegurar a boa evolução da gravidez. Para tanto, deverá haver um bom entrosamento entre o médico e a paciente, para juntos identificarem qualquer anormalidade e poderem corrigí-la a tempo.
Um bom exemplo vem a ser o ganho de peso durante o pré-natal. Algumas mulheres ainda acham que podem engordar o quanto quiserem durante a gravidez, que devem comer por dois e que, quanto mais comerem, mais saudável será seu filho. Ledo engano! A mulher deverá engordar entre 9 e 12 quilos durante a gravidez e o que vier a mais será prejudicial, estando associado com o surgimento tanto da pré-eclâmpsia quanto do diabetes gestacional. Este peso a mais ficará retido após a gestação e poderá comprometer o peso futuro desta mulher. Vale dizer que aproximadamente 40% das atuais obesas se tornaram gordas após uma gravidez mal acompanhada.
Além disso, quem disse que criança gordinha é saudável? Se uma criança cresce muito dentro do corpo da mãe, certamente encontrará mais dificuldade em sair de lá, podendo ocorrer traumas durante o parto, seja ele operatório ou não. Além disso, quanto maior a criança, maior a dificuldade em se adaptar à nova vida neste mundo, podendo desenvolver durante as primeiras horas de jejum a assim chamada hipoglicemia, que pode levar à convulsão e ao coma, quando não for rapidamente
diagnosticada.
Para que tudo isto não ocorra, compete ao médico durante o pré-natal checar o ganho de peso da paciente em toda consulta, alertando-a quando o ganho semanal ou mensal for exagerado ou, ao contrário, quando for insuficiente. Existem gráficos adequados para este controle, que auxiliam tanto o médico como a paciente na visualização do ritmo de ganho de peso, contribuindo para a pronta tomada de decisão frente a uma tendência que ainda não tenha se configurado num problema insolúvel.
Desta forma, com pequenos e constantes cuidados, o médico vai adequando a grávida ao seu novo padrão de vida, orientando não só a dieta como também outros diversos aspectos práticos do dia-a-dia. Sabe-se que, desta forma, sem muitos exames e sem grandes estardalhaços, pode-se fazer um bom pré-natal, evitando-se o surgimento de problemas que poderiam comprometer um momento tão especial e bonito. Aqui, como em outras áreas da realidade humana, o jogador que não se sobressai, mas que atua com atenção e presteza, pode fazer o jogo ser ganho por toda
equipe.
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